Os meus contemporâneos falam muito e dizem: “Então é assim”, com o ar desenvolto de quem se alimenta do som da própria voz, quando começam a explicar longamente as actuais tendências das artes ou das letras ou das sociedades a pouco e pouco iguais umas às outras neste primeiro mundo em que nascemos, agora que o segundo deixou de existir e que o terceiro, mais guerra, menos fome, continua abstracto, em folclore distante. Parece que está morta a metafísica e que a verdade adormeceu, sonâmbula, nos corredores vazios onde, às escuras se vão cruzando alguns milhões de frases dos meus contemporâneos. Todavia, falam de tudo com o entusiasmo de quem lança “propostas” decisivas e percorre as “vertentes” de novos caminhos para a humanidade, enquanto saboreiam a cerveja sem álcool, o café sem cafeína e sobretudo o amor sem amor, para conservarem o equilíbrio físico e mental. Os meus contemporâneos dizem quase sempre que não são moralistas, e é por isso que forçam toda a gente, mesmo quem não quer, a ser livre, saudável e feliz: proíbem o tabaco e o açúcar e se por vezes sofrem, tomam comprimidos porque a alegria é uma questão de química e convém tê-la a horas certas, como o prazer vigiado por preservativos e outros sempre obrigatórios cintos de segurança, para que um dia possam sentir que morrem cheios de saúde. Quando contemplo os meus contemporâneos entre as conversas “trendy” e os lugares da moda, “tropeço de ternura”, queria ser pelo menos tão ingénuo como eles, partilhar cada frémito dos lábios, a labareda vã das gargalhadas pela madrugada fora. No entanto, assedia-me a acédia de ficar assim, mais preguiçoso que um Oblomov à escala portuguesa – ó doce anestesia a invadir-me o corpo, a libertar-me desse feitiço a que se chama o “espírito do tempo” em que vivemos, sob escombros de um céu desmoronado em mil pequenos cacos ainda luminosos, virtuais estrelas que se apagam e acendem à flor de todos os écrans que os meus contemporâneos ligam e desligam cada dia que passa, nunca se esquecendoContinuar lendo “ZEITGEIST, de Fernando Pinto do Amaral”
Arquivos mensais:abril 2022
Sonhar com sons
Dedicado a Fabrício Cordeiro Ele sonha através das teclas do piano, Onde toca a música que escreve. Dá a cada tecla um som, Criando misturas inesperadas, Fascinantes. Ele transforma as teclas – que não mudam Com o tempo Em sons novos Todo o tempo! Ele cria composições novas Sempre que o seu poder criativo aparece,Continuar lendo “Sonhar com sons”
Poetry Slam
Faz te ouvir. A poesia que tu Escreves A original Aquela que e a tua cara Vem participar Nao me interessa ganhar. Ganho sempre. Amigos, vivências, Novos pontos de vista. Vem desafiar te. Joga ao Poetry Slam Comigo. Eu venho para te ouvir E quero ser ouvida. Vao ser atribuídos pontos Aos nossos poemas EContinuar lendo “Poetry Slam”
Sou e não sou
Sou o que não sou, Sou o que quereria ser e não sou. Não sou o que os outros querem que seja Apenas sou o que possível ser Hoje Tenho pessoas que admiro. Gostava de ter as suas qualidades. Mas não me parece possível. Não sou como quero, sou como sou Não sou como osContinuar lendo “Sou e não sou”
