Vampiros pós-apocalipticos (2)

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Eles odeiam as pessoas (todas as pessoas).
O que interessa é o que se passa na bolsa,
Tudo o resto é perda de tempo.
Por isso eles odeiam-te.
Queres ter amor-próprio?
Não fales com eles!
Eles odeiam as fronteiras (quase todas).
Eles não querem saber se vives ou morres,
Desde que dês lucro.
Eles só querem gente obediente.
Eles não gostam de quarentenas:
A gente pode começar a pensar,
Criar mundos alternativos,
E isso é perigoso.
Eles promovem a inveja entre nós,
Eles promovem o ódio entre nós,
Pois divididos somos mais manipuláveis.
Eles não querem saber da tua privacidade,
Vais ser teleguiado pelo mundo inteiro.
Dás-lhe os teus bens,
Para teres uma velhice pacifica,
Depois eles já não querem saber de ti.
Eles querem que nós amemos o deus deles,
Mais do que nos amemos uns aos outros,
Porque se morrermos seremos seus mártires,
Sem honra nem glória.
Empatia e cooperação,
e solidariedade são palavras
Estranhas e perigosas
Para o seu vampirismo!

Gerador (1)

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Deste-me a vida e depois
Tomaste-a para ti, como se fosse
Propriedade privada.
Eu era como um pedaço de terra,
Eu era como um bocado dinheiro.
Só que mais livre, porque não se
Pode aprisionar o pensamento.
Mas nada do que eu fizesse era suficiente.
Tudo para ti é negro,
Seja conhecido ou desconhecido.
E tudo o que eu faço.
Um gerador não deve ser explorado,
Mas se o gerador explora não há problema.
E tu exploraste o meu ser,
Até o deixar sem nada dentro.
Queres estar sempre no controle!
No teu mundo as pessoas não podem
Errar. Só tu podes!
Lembra-te de que, tal como eu,
Um dia vais morrer.
Lembra-te que podes viver
Melhor ou pior.
Lembra-te que tens de ser mais
Que o meu gerador.

Os heróis do Covid-19

#SóOPovoSalvaOPovo

São os enfermeiros, os médicos e as auxiliares,
Na linha da frente do combate ao monstro,
Assim como motoristas, maquinistas, estivadores,
empregados de supermercados e farmácias,
gasolineiras, fábricas de produção de alimentos,
Biólogos, homens do lixo, empregadas de limpeza,
Policias, militares, bombeiros, farmacêuticos,
Agricultores, camionistas,
Técnicos de diagnóstico e terapêutica,
Funcionários de lares.
São heróis os investigadores, muitos deles dependentes
De bolsas precárias.
Sãos heróis todos os pais em casa com os filhos,
E uma palavra aos pais de crianças especiais.
Uns em teletrabalho sobrecarregados,
Outros sem trabalho, a temer o futuro.
Sim, todos os que ficaram desempregados são heróis.
Sim, todos os que estão em lay-off são heróis.
E ainda os freelancers que ficaram sem nada,
Cujo destino foi traçado pelo monstro do vírus,
E pela aberração do sistema.
São heróis os professores que se adaptaram rapidamente
e dão o seu melhor.
São heróis os engenheiros de tanta coisa,
Como o movimento Maker e o Tech4Covid19,
Que trazem tantas soluções para os nossos problemas.
Há heróis entre os pequenos e médios empresários
(Mas não são todos capazes de gestos heroicos).
Não entram nesta lista os banqueiros, os bolsistas,
Os gestores de fundos monetários,
Os jogadores de futebol pagos a peso de ouro,
Os comentadores de televisão e de jornais,
E esses sempre-os-mesmos-gurus que recomendam
Austeridade, cortes de ordenados e menos serviços públicos.
Não entra nesta lista o Eurogrupo.
Há tantos heróis hoje,
A viver em estado de excepção,
Porque só o povo salva o povo.

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Há palavras que nos beijam

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.

Alexandre O’Neill, in ‘No Reino da Dinamarca’

A Horta

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Francisco vivia na cidade. Tinha uma casa com um jardim pequeno, ocupado com relva e umas roseiras. Francisco vendia carros, desde há 10 anos. Adorava o seu trabalho. Adorava atender clientes, arranjar o carro adequado a cada perfil de cliente e estar ao lado do cliente, a fazer a primeira volta antes da compra. Conhecia tudo sobre os modelos mais recentes.
Mas um dia apareceu uma gripe mortal. Era a Covid-19. O governo mandou toda gente que trabalhasse em serviços não essenciais ficarem em casa, A empresa de Francisco entrou em lay off e ele deixou de trabalhar. Passou a estar mais tempo com a mulher e os filhos. Francisco tinha um jardim cheio de ervas daninhas que raramente cuidava. Passou a cuidar mais do jardim.
E de repente deu-se conta que o jardim se podia transformar numa horta. Retirou a relva e plantou tomate, alface e feijão verde para começar. Francisco ocupava os tempos mortos, quando não havia nada para fazer, a tratar desta horta. Assim as semanas passaram num ápice. Quando três meses depois a quarentena terminou e Francisco voltou ao trabalho, sentiu falta da família e da horta. A sua horta tornara-se um aspeto importante da sua vida.
O tempo passou e Francisco continuou a cuidar da sua horta, que floresceu. Já não tinha tanta vontade de viajar, porque havia algo ao lado de casa a que se dedicar.
Um dia foi ao mercado logo cedo comprar sementes para plantar batatas. Ai conheceu o senhor João, que lhe falou da existência de uma horta comunitária naquela cidade. Perguntou-lhe se queria dividir um talho consigo. O senhor João plantaria numa parte do talho e Francisco noutro. Francisco ficou a pensar no assunto. Depois de uma noite mal dormida ligou ao senhor João: ia aceitar a sua oferta.
Mais três meses se passaram. Francisco continuava o seu trabalho de venda de automóveis, mas cada vez se sentia mais ligado à terra. Através do senhor João conhecera muita gente com os mesmos interesses. E eis que num dia lhe fizeram uma proposta surpreendente: Francisco amanhava uma pequena área de solo situada nos arredores da cidade em regime de aluguer. Uma percentagem da produção ficava para o dono da terra, mas a maioria ficaria para Francisco. Este era o maior desafio de sempre. Francisco pensou durante uma semana, mas decidiu aceitar. Embora tenha praticamente deixado de viajar para fora do conselho, este desafio deixou Francisco mais realizado do que nunca.
À medida que os anos foram passando, o cultivo da terra tornou-se o centro da vida de Francisco. Tanto que se decidiu reformar mais cedo para cuidar das suas terras, que, entretanto, foram aumentadas com novas aquisições.

“Deus está na chuva”

“God is in the rain”

– V de Vendetta

 

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Deus está na água,

Deus está no fogo e no ar,

Deus está na Terra.

Deus está nos pássaros,

Deus está nos grilos,

Deus está em todos os animais.

Deus está no Homem,

Esse animal racional e irracional.

Deus está entre nós.

Deus está na chuva,

Que batiza cada dia de esperança,

Que batiza a minha vida de liberdade.

Que me traz calma no meio desta tempestade.

 

 

Solidão terapêutica

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Gosto de ti solidão,

Quando me deixas ouvir-me.

Detesto-te solidão,

Quando vens acompanhada

De gente que não me ouve.

Preciso de gente

Mas que me oiça!

Gosto de ti solidão,

Quando oiço o silêncio e o meu coração,

Está calmo, pacifico, presente.

Detesto-te, solidão,

Quando vens acompanhada,

De ansiedade, de tristeza,

E de medo.

Gosto de ti solidão,

Quando és terapêutica.

Nesses momentos,

És o balsamo para a minha alma.

 

Imagem: Pintura de Edward Hopper.

Declaração

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Para alguém especial

Vi-te a primeira vez no tempo das descobertas,
De sair à noite a primeira vez.
Depois o tempo passou e voltamos a encontrar-nos
Nas vésperas do Outono da vida,
Nas vésperas do ano mais terrível das nossas vidas,
No ano da minha declaração de independência.
Mil vezes te quis esquecer,
Mas havia sempre um livro, um filme, um CD,
Ou um artigo de jornal,
Que me faziam querer-te por perto,
Que me faziam lembrar de ti.
Dás música ao mundo
E sempre deste calor humano.
Espalhas amor e alegria por onde passas,
Mas como estás tu?
Como está o teu coração?
Quero-te por perto sempre,
Enquanto tu quiseres,
A iluminar a minha vida.
Por isso te escrevi esta declaração.

Fio de nylon

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Dedicado a Catarina Sacramento.

 

O nosso ânimo é um fio de nylon,

Um dia acordamos cheios de energia,

Cheios de vontade de não parar a produção,

Cheios de vontade de Viver!

E de dizer piadas!

Noutro dia adormecemos

Cheios de medo.

O desconhecido tornou-se rotina,

As notícias de mortos aumentam,

E o clima é de guerra.

Muitos cheios de certezas dão nome ao inimigo,

Mas o verdadeiro inimigo é outro:

Está dentro de nós: o que pensamos.

Está fora de nós: o que fizemos para chegar aqui?

Precisamos todos os dias de um fio de nylon,

De risos, de música, de séries,

De cinema, de livros, de performances,

De bolos, de pudins, de pão caseiro,

De atividade física,

De amigos e família em lives,

Nas redes sociais,

Para nos manter no fio de nylon do ânimo,

E mesmo assim à noite temos insónias.

Descobrimos que somos um fio de nylon na Terra.

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