Quem és tu?

“- Romeiro, romeiro, quem és tu?

– Ninguém.”

― Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa

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Quem és tu?

Mulher em construção

Em exploração

Em experimentação

Mulher há tanto tempo,

Mas ainda te tratam como uma criança!

Porque tens tantos medos escondidos,

Dentro de ti,

És sensual mas só te querem por uma noite

De sexo que corre mal.

Uma noite sem futuro nem amor.

És rapariga de família,

És rebelde,

Mas tens causas.

És doce para quem merece,

Às vezes também para quem não merece.

És um processo de mulher,

Mulher em construção.

Quem és tu?

Mulher que foges do espelho.

Vêem-te como uma Maria certinha,

Mas és muito mais do que isso!

Nota: Imagem de Lucy Campbell

 

Vampiros pós-apocalipticos (1)

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Ainda não terminou o Estado de Emergência,
Ainda não há cura para o vírus mortal,
Ainda há milhões de pessoas que vão morrer,
Já se vislumbram ao longe os vampiros pós-apocalipticos,
A querer sugar o sangue dos outros mortais.
Uns são chineses,
Outros norte-americanos,
Outros vivem no Paraíso da Dívida
Que é a União Europeia.
(Paraíso para uns, Inferno para outros)
Todos prontos a sugar,
Em nome da economia,
O sangue que restará desta matança.

Estranha Primavera 2020

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Todas as Primaveras são iguais?
Talvez sim, talvez não.
Pois esta Primavera de 2020 tem
“de manhã cara de cão, ao meio-dia de rainha,
e à noite de fuinha”
Como todas as outras!
Estranha Primavera,
Tenho saudades de cheirar as tuas flores.
Às vezes cheiro a tua brisa,
Outras cheiro a lixivia
Que anda no ar.
As arvores ficam mais verdes, há flores a nascer
Estamos na Primavera
Há polens no ar mas são menos a queixar
Está tudo no seu lar.
Às vezes há chuva e o tempo está inconstante
Mas não devemos sair à rua por causa de um
Vírus mutante.
Que está escondido.
Que podemos apanhar inopinadamente,
Numa esquina do tempo.
Estranha Primavera,
O teu tempo engana,
Como a nossa saúde.
Estarei sã? Estarei doente?
Não há testes suficientes,
Nem camas de hospital.
Descobrimos que não sabemos nada
Sobre a Vida e sobre a Morte.
Descobrimos o poder da ciência
E da Alma humana.
Uma coisa sabemos, Primavera:
Não seremos iguais depois da tua passagem.
Penso: sobreviverei á tua passagem?

Covid-19 (2)

influeza espanhola 100 anos depois

É de dia mas a cidade está dormente.
Vê-se pouca gente na rua.
As raras pessoas que passam
Mostram o nosso medo e a nossa insónia
Colectiva.
Não sabemos como ajudar os nossos vizinhos.
Devemos falar com eles?
Afastamo-nos. Distância social.
Enquanto não for encontrada uma vacina,
Ou uma cura universal barata,
Todos estamos de frente para a morte.
Uns vão vencê-la e ficar imunes,
Outros vão morrer e nunca saberemos porquê.
A morte portanto
Vai ter muito por onde escolher,
Depois de anos de incúria nos serviços públicos,
Depois de a saúde ter sido promovida a negócio.

Covid-19 (1)

infográfico

De repente o futuro é ontem
E ficou hipotecado pela irresponsabilidade
De alguém.
De repente a casa é prisão
E lugar de libertação.
De repente estar só é uma pena.
E um presente.
De repente os pais conhecem os seus filhos
Porque de repente arranja-se mais empatia
(não todos, não sempre).
De repente podemos fazer o que andamos a adiar,
Por meses ou anos.
De repente os abraços estão proibidos,
E os beijos adiados para data incerta.
De repente eu temo o meu futuro
E o teu, e o de todos nós!
De repente a morte parece estar perto,
Em cada gesto do quotidiano.
De repente precisamos de saber ler
Números. Saber perceber gráficos
E estatísticas.
De repente os cientistas valem mais que os jogadores de futebol,
Os profissionais de saúde merecem aplausos,
E tantas profissões desvalorizadas tornam-se fundamentais.
De repente todos os dias há notícias de alguém que morre,
Há novos gráficos, novas informações e às vezes mentiras.
De repente o Covid-19 chegou às nossas vidas,
E saber se o temos ou não é a questão mais importante.

Nosso poema, nosso amor

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Tenho lido tantos poemas de amor,
De homens e de mulheres,
Alguns teus.
E vejo que os teus poemas são mais lindos.
Fiquei com vontade de fazer um poema contigo,
E depois fazer amor contigo.
Tu com as tuas mãos e sexo experiente,
Eu com o meu corpo redondo e desajeitado,
Com a minha vagina que te deseja tanto,
Mas não sabe como te receber.
Tu perfeito nas imperfeições,
Eu imperfeita nas perfeições.
O nosso poema poderia não ser um êxito,
O nosso amor também,
Mas sei que te teria perto de mim
Por mais um minuto ou por mais uma hora.
Serei feliz porque nesse dia o meu corpo estará nu
Como a minha alma já está nua para ti agora.

Felicidade é (1)

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Felicidade é estar numa biblioteca,
Atender utilizadores,
Vê-los uns a entrar e outros a sair.
O seu movimento enche-me a alma.
Felicidade é ler um poema.
Felicidade é ler um conto.
Felicidade é ler um livro.
Ou ver um filme (que faço mais raramente).
Ou ouvir música.
Felicidade é escrever.
Criar mundos com as palavras.
Deitar para fora o negro da alma.
Mandar no mundo com uma folha de papel.
Felicidade é escrever este poema naif,
que não deve nada à sabedoria dos grandes poetas!
Felicidade é ter dois blogues.
Felicidade é preparar entrevistas para o Insustentável Leveza.
Felicidade é ter-te a ler-me!

Tragam-me um homem (…)

«Tragam-me um homem que me levante com
Os olhos
Que em mim deposite o fim da tragédia
Com a graça de um balão acabado de encher
Tragam-me um homem que venha em baldes,
Solto e líquido para se misturar em mim
Com a fé nupcial de rapaz prometido a despir-se
Leve, leve, um principiante de pássaro
Tragam-me um homem que me ame em círculos
Que me ame em medos, que me ame em risos
Que me ame em autocarros de roda no precipício
E me devolva olheiras em gratidão de
Estarmos vivos
Um homem homem, um homem criança
Um homem mulher
Um homem florido de noite nos cabelos
Um homem aquático em lume e inteiro
Um homem casa, um homem inverno
Um homem com a boca de crepúsculo inclinado
De coração prefácio à espera de ser escrito
Tragam-me um homem que me queira em mim
Que eu erga em hemisférios e espalhe e cante
Um homem mundo onde me possa perder
E que dedo a dedo me tire as farpas dos olhos
Atirando-me à ilusão de sermos duas
Novíssimas nuvens em pé.»
Cláudia R. Sampaio

“Encontrar-se”

«“Encontrar-se”
Não funciona bem assim.
Nós não somos uma nota de dez euros escondida no bolso do casaco do Inverno passado.
Também não estamos perdidos.
O nosso verdadeiro Eu está já aí. Enterrado no condicionamento cultural, na opinião dos outros, nas conclusões imprecisas que nós desenhamos em criança e que se tornaram as nossas crenças acerca de nós.
“Encontrar-se” é na realidade voltar para nós mesmos.
Um desaprender, uma escavação, uma lembrança de quem nós somos antes do mundo nos moldar.»

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Traduzido e inspirado por The Happiness Project.

Poema á Falta de Dinheiro

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Dizem que os intelectuais não gostam de falar de dinheiro.
Pois eu, se pudesse escrevia uma tese sobre o assunto!
Só não escrevo porque para estares na universidade precisas de dinheiro,
E depois dizem-te que o teu conhecimento é inútil,
Que só mereces ser caixa de supermercado com o teu curso!
Portanto fica mais barato escrever este poema-tentativa,
Ou tentativa de poema, sobre o dinheiro!
Tens dinheiro no banco? Eles tiram-te dinheiro todos os meses,
Mesmo quando não fazes nada.
Vais ao supermercado? Precisas de dinheiro!
Vais tomar um café? Dinheiro!
Vais comprar roupa? E dinheiro?!
Vais um concerto? Precisas de dinheiro.
Vais almoçar fora? Dinheiro!
Vais ao cabeleireiro? Pois, precisas de dinheiro!
Precisas de ir ao médido? Ah, adeus dinheiro!
Queres fazer algo completamente diferente disso?
Também precisas de dinheiro!

E depois vêem os deuses da economia avisar,
Que não há mais dinheiro para ti!
O dinheiro tem de ir directamente para os bancos,
Para ti só sobram as migalhas,
Porque os bancos são mais importantes que tu,
Que és humano!
Para eles há sempre dinheiro,
Para ti o teu aumento é celebrado como uma grande fortuna,
Mesmo quando apenas dá para comprar duas caixas de manteiga.

Ouves as notícias e tens vontade de ficar fechado em casa,
Para poupares dinheiro.
Ao mesmo tempo que és intimado a comprar.
Se tens amigos tens de ter dinheiro,
Se queres sair de casa tens de ter dinheiro!
Se queres ter uma casa só tua vai sonhando,
Porque não tens dinheiro!

Oh falta de dinheiro,
Pão-nosso-de-cada-dia,
Que não nos alimenta,
Destino cruel de quem tem de escolher,
Entre Viver e não gastar dinheiro.

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