O Fermento

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Um homem, um viúvo, tinha duas filhas. Ele queria que elas cozessem pão para vender para fora. Comprava-lhes todos os ingredientes, menos um: o fermento. Então as filhas faziam pão ázimo. Mas o pai recusava comer ou vender esses pães.
O pai queria que elas fabricassem a levedura (1) por si mesmas. Não a podiam comprar – não lhes dava dinheiro para isso – nem pedir a ninguém. Mas as filhas não tinham como fabricar tal coisa por si mesmas.
Claro que as filhas não conseguiram fabricar a levedura (1) por si mesmas: às vezes conseguiam-na obter pedindo-a, às escondidas, aos amigos ou aos vizinhos. Nessa altura havia pão que se vendia bem e o pai ficava contente. Mas a maioria das vezes o que havia para vender era pão ázimo, que ninguém comprava. Assim se passaram anos. A família foi empobrecendo.
Um dia as filhas cansaram-se e emigraram para o reino vizinho. O pai morreu velho, pobre e sozinho. E as filhas conseguiram criar uma padaria de sucesso, com pão feito de levedura comprada a um fornecedor de confiança.

(1) Saccharomyces cerevisiae.

Medo

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Sabia que tu existias em mim.
Não sabia que eras tão fundo,
A ponto de ver um cartão,
E pensar em fugir.
A ponto de entrar em pânico
Com a ideia de ir ao cinema de carro.
Tornei-te o centro da minha vida
E ainda não consegui enfrentar-te!
Tenho medo de tanta coisa!
Saí de casa mas ainda não saí do medo,
Se calhar nunca saírei.
Conquistei tanto na vida,
Falta conquistar os meus medos.
Medo. Só medo!

O meme de Valéria

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Valéria estava a ouvir a televisão, distraída. Ao mesmo tempo estava mais concentrada em mexer no seu cabelo e no seu smartphone.
Recentemente a cabeleireira tinha cortado o canelo a Valéria e feito um bob (corte médio ate aos ombros). Agora Valéria mexia orgulhosa no cabelo.
No seu smartphone partilhou o meme que mais recentemente fervilhava no Facebook, quase sem pensar.
Quase sem pensar, não: Valéria era sempre pelas vítimas, era sempre pelos bons, a sua moral era irrepreensível. Cometia os pecados normais de toda a gente e falava mal nas costas dos que mereciam, ou seja, dos impuros e dos ladrões. Por isso era natural que partilhasse este meme no Facebook:
«Sim, eu racista!
Porque não gosto de raças que roubam.
Porque não gosto de raças que não trabalham e vivem à custa dos impostos que eu e quem trabalha honestamente paga.
Porque não gosto de raças que podem ter, no meu país, uma lei diferente da que eu tenho que respeitar.
Porque não gosto de raças que se aproveitam politicamente sempre que os policias tem de usar a força para impor a lei,
Porque não gosto de raças que tentam branquear os seus comportamentos com acusações de racismo.
Pois… nenhuma destas raças tem cor mas qualquer delas pode ter as cores tidas.
As raças são pessoas!
Umas boas, outras más…»

Valéria depois lembrou-se da amiga Joana, que se tinha juntado com um mulato e tido um filho. Joana no dia anterior, no café, queixara-se que os vizinhos lhe tinham dito, numa noite em que a sua bebé provocara insónias no prédio inteiro:
– Tens uma filha preta, que horror! Devias ter vergonha!
Valéria pensou que não sabia o que pensar. Joana era sua amiga desde crianças! Por outro lado, ter uma filha com um mulato era uma má escolha. E Valéria só era racista porque apoiava sempre os bons. O que pensar então?
Ligou a televisão. Mais um jogo de futebol que começava. Saiu da sala. O marido viria entretanto e gostaria da televisão só para si. E Valéria estaria na cozinha a pensar no jantar e na cor das unhas de gel, como fazem as pessoas sérias!

O Beijo do Herói-escondido

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Era uma mulher-guerreira, uma princesa nada adormecida
Dormia mal as noites,
Escondida numa gruta escura,
Mais escura que a de Platão!
Por isso estava acordada e meio ensonada quando viu
O herói-escondido!
Ele deu-lhe o beijo
Na cara
Mas ela sonhou que tinha sido
Na boca.
Sonhou mil noites
De felicidade. De sexo.
De amizade. De compreensão.
Despediram-se.
E ela ficou a sonhar o resto do mês.
Oh beijo na cara,
Que despertaste o fogo adormecido.
Ele era um Anjo e um Barba Azul
E tudo aconteceu na Colina do Sol.
Ele era de todas e de todos,
E de ninguém!
Ele ensinou-lhe onde era a sua Terra da Fantasia,
A mulher-guerreira conhecia o local dos livros e dos amigos.
Mas naquela Terra da Fantasia conheceu um Amor e uma Dor
Diferente!
Ela encontrou alguém com quem falar de tudo e de nada,
Pois o herói-escondido tinha esses superpoderes!
O herói-escondido fez a mulher-guerreira ver a Arte com outros olhos.
O herói-escondido ensinou à mulher-guerreira novas melodias.
O herói-escondido era cheio de contradições, mas ela aceita-o assim.
A nossa história não termina nunca.
Um dia a mulher-guerreira desistiu de sonhar
Com o beijo na boca do herói-escondido,
Mas não da sua amizade!
Portanto o beijo durou mais de um minuto!

O silêncio

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“O silêncio é a única resposta a dar aos tolos”,
Lê-se num linque de Internet constantemente
Reproduzido no Facebook…
Não concordo!
Está certo que o uso do silencio e do desprezo
Às vezes.
Mas eles apenas são benéficos em situações especificas.
Farta de estar em silencio estou eu!
Farta que a minha voz não seja ouvida estou eu!
Preciso de encontrar uma forma de
Falar o que sinto mesmo que as pessoas não gostem do que eu digo,
Escrever o que sinto mesmo que as pessoas não gostem de me ler,
Preciso de arriscar a que as pessoas se zanguem comigo.

A menina-com-asas-no-coração

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Era uma vez uma menina-com-asas-no-coração. Deixem-me explicar como tudo aconteceu. A Ana era uma menina-que-se-portava-bem-sempre e obedecia sempre aos pais. Mas era também uma menina de 11 anos que desejava voar. Sonhava com o dia em que lhe nascessem asas em cima dos ombros, como ela já tinha visto acontecer a outros meninos na televisão.
Por isso começou a ficar muito desiludida e preocupada quando se deu conta que tinha umas asas pequeninas no coração. Umas asas que lhe permitiam ver coisas invisíveis aos outros mas não lhe permitiam voar. E essas asas ainda lhe começaram a trazer um problema adicional: começou a ter problemas reais de coração e precisou tomar medicamentos. A menina viveu assim durante três anos de tormenta. Até que encontrou a fada-bruxa e lhe pediu ajuda. Mas a fada-bruxa tinha uma condição para a ajudar: que a menina entrasse na Terra da Fantasia e roubasse o ceptro de ouro ao ogre-frio.
A menina decidiu correr o risco e ajudar a fada-bruxa. Assim pôs-se a caminho da Terra da Fantasia. Caminhou por montes, vales e montanhas. O obstáculo maior foi o Oceano de Emoções que se apresentava à entrada da Terra da Fantasia: a alegria, a tristeza, o medo, a raiva, o nojo, a calma, a vergonha, a compaixão, a bondade, a saudade, a gratidão, o desprezo, entre muitas outras. A menina-com-asas-no-coração sentiu-as todas, varias vezes, à medida que ultrapassava o oceano. O seu coração às vezes não aguentava mais! Com muito esforço, conseguiu finalmente chegar à Terra da Fantasia.
Aí encontrou um castelo labiríntico, abandonado e cheio de teias de aranha. A menina-com-asas-no-coração perguntou-se se seria ali que encontraria o ceptro de ouro. Percorreu o castelo dez vezes, sem nunca o ver. Até que, escondido numa sala poeirenta encontrou aquilo que parecia ser um candelabro velho. Assim que a menina-com-asas-no-coração tocou nele, o ouro revelou-se.
Foi então que o ogre-frio descobriu a menina-com-asas-no-coração. Iniciou-se uma perseguição. A menina perdeu-se várias vezes no castelo labiríntico. Por pouco não se tornou numa estátua bolorenta. Mas seguindo a sua intuição, conseguiu ao fim de varias tentativas sair do castelo labiríntico até ao barco que a esperava.
Depois de nova passagem pelo Oceano de Emoções – agora mais fácil porque ela já conhecia todas elas – chegou finalmente a casa, onde a esperava a fada-bruxa. A fada-bruxa agradeceu a ajuda da menina-com-asas-no-coração transformando-a em menina-com-asas-nos-ombros que lhe permitiram finalmente voar, como ela sonhava há muitos anos.
Vitória, vitória, acaba aqui esta história!

 

NOTA: Conto escrito para o Encontro de Natal do Clube de Leitura Livros & Ca. Obrigada Edite Peralta Fernandes pelo desafio.

 

Como me tornei um guerreiro, de Jeff Foster

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«Houve um tempo em que fugia do medo,
então o medo me controlava.
Até que aprendi a segurar o medo como um recém-nascido.
ouví-lo, mas não ceder.
Honrá-lo, mas não o adorar.
O medo não podia mais me impedir.
Eu entrei com coragem na tempestade.
Ainda tenho medo,
mas ele não me tem.

Houve um tempo em que
eu tinha vergonha de quem eu era.
Eu convidei a vergonha para o meu coração.
Eu a deixei queimar.
Ela me disse: “Estou apenas tentando
proteger sua vulnerabilidade “.
Eu agradeci à vergonha,
e entrei na vida de qualquer maneira,
sem vergonha, com a vergonha como minha amante.

Houve um tempo em que tive muita tristeza
enterrada bem no fundo.
Eu a convidei para sair e brincar.
Eu chorei oceanos.
Os meus canais lacrimais estavam secos.
E eu encontrei a alegria ali mesmo.
Bem no centro da minha tristeza.
Foi o desgosto que me ensinou a amar.

Houve um tempo em que tinha ansiedade.
Uma mente que não parava.
Pensamentos que não silenciavam.
Então parei de tentar silenciá-los.
E eu larguei da mente
fui para a terra,
para a lama.
Onde fui abraçado fortemente
como uma árvore, inabalável, segura.

Houve um tempo em que a raiva queimou nas profundezas.
Eu chamei a raiva para a luz de mim mesmo.
Eu senti seu poder chocante.
Eu deixei meu coração bater e meu sangue ferver.
Escutei, finalmente.
E ela gritou: “Respeite-se ferozmente agora!”.
“Fale a sua verdade com paixão!”
“Diga não quando você quer dizer não!”
“Ande o seu caminho com coragem!”
“Que ninguém fale por você!”
A raiva se tornou uma amiga sincera.
Um guia sincero
Uma linda criança selvagem.

Houve um tempo em que a solidão cortou profundamente.
Eu tentei me distrair e me entorpecer.
Corri para pessoas, lugares e coisas.
Até fingi que estava “feliz”.
Mas logo eu não pude correr mais.
E eu caí no coração da solidão.
E eu morri e renasci
em uma requintada solitude e quietude.
Isso me conectou a todas as coisas.
Então eu não estava em solidão, mas sozinho com toda a vida.
Meu coração Um com todos os outros corações.

Houve um tempo em que fugia de sentimentos difíceis.
Agora, eles são meus conselheiros, confidentes, amigos,
e todos eles têm um lar em mim
e todos eles pertencem e têm dignidade.
Eu sou sensível, suave, frágil
meus braços envolveram todos os meus filhos internos.
E na minha sensibilidade, poder.
Na minha fragilidade, uma presença inabalável.

Nas profundezas das minhas feridas
no que eu tinha chamado de “escuridão”,
Eu encontrei uma luz ardente
Isso me guia agora em batalha.

Eu me tornei um guerreiro
quando me virei para mim mesmo.

E comecei a ouvir.»

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