Escrever

Escrever é emoção

Sem isso não há canção

Nem poema

Escrever é amor

Dar e receber

Escrever é dor

Quando ela consegue ser escrita

Às vezes a dor guarda-se no silêncio

E não há meio dela sair

Escrever é noção

De cada palavra

Do mundo em volta

Do mundo silencioso

Interior

Escrever é dádiva

Legado

Caminho

Paragem

Silêncio

Escrever é começar

Da folha vazia

O medo e da alegria.

Cabe sempre mais um

Nos nossos encontros

cabe sempre mais alguém

Alguém desconhecido

Alguém novo

Com a convivência

Torna-se familiar

Nos nossos encontros

Todos são bem-vindos

Somos todos seres do mundo

Somos todos aprendizes

Somos todos professores

Nos nossos encontros

Cabe sempre mais um

Vejo na tua cara

Dedicado a Cristiana Cunha

Vejo na tua cara a revolta

Que é a minha impotência

Devias ter um mundo de oportunidades

Mas tens apenas sonhos não concretizados

Nenhum vislumbre de futuro

Num país que não te dá valor

Num país que te quer precária toda a vida,

Criada dos endinheirados

Obediência cega.

E, no entanto, és tu quem me dá força

Vejo na tua cara a determinação dos vencedores

Que às vezes me falta no meu percurso acidentado

Neste país que não nos dá futuro

Em que o futuro é sermos criados dos outros

És exemplo de luta e coragem

Luz na minha escuridão

Esperança no meu “nada”.

Qatar deixa estar

Qatar

Deixa estar

Depois de há doze anos aprovar

Candidatura ao mundial

Deixa estar

Porque o comércio livre

Resolve tudo

Deixa estar

Porque o futebol

Resolve tudo

Deixa estar

Vamos exportar o vicio do futebol

Deixa estar

Como exportámos a democracia

(não resultou)

Vamos exportar o vício do futebol

Como fizemos nos Estados Unidos

(aí resultou!)

Depois contratamos o Beckham para treinador

No Qatar já está de embaixador

Deixa estar

Os direitos humanos podem esperar

Dizem os presidentes e os primeiros ministros

( não só de Portugal)

Deixa estar

Dizem os homens da FIFA e da UEFA

Deixa estar

Vamos ver futebol no Qatar

Planeámos isto há doze anos

Deixa estar

Os direitos humanos podem esperar.

Os patrocinadores que vendem cerveja

Eles vão indemnizar

Deixa estar.

Que importa os mortos

O Qatar é um exemplo

De como fazer as coisas

Deixa estar!

Nós somos a geração

Nós somos a geração

Que recusa envelhecer

Temos filhos

Mas não ficamos em casa

Saímos à noite

Bebemos cerveja

Temos vinte anos

Todos os fins-de-semana.

Há rock desde que começámos a sair à noite

Até hoje.

Bebemos a cerveja com os amigos

Com os filhos ao lado

Nós somos a geração

Dos Peters-Pans-Adultos

Que não se ficam pela festa na aldeia.

Também vão ao bar dançar e beber,

Também vão à discoteca dançar e conhecer,

Também vão ao bar conversar e clubber.

Trabalhamos muito durante a semana

Somos responsáveis durante a semana

Para dinheiro

Para um pé de dança não faltar.

Vamos saltar!

Para sempre,

O resto da vida,

Vamos sair à noite

Com os filhos

Sem os filhos

Com os netos

Se não morrermos antes,

Vamos sair à noite até morrer,

Vamos sair à noite até

À véspera da nossa morte.

Tratamos das crianças

Depois vamos dançar,

Nós queremos bandas a tocar para nós,

Nós adoramos DJ

Ouvimos a música que eles

Escolhem para nós,

Que é a nossa música,

Nós somos a geração

Que recusa envelhecer

Sem continuar a dançar.

Pessoas são pessoas

Pessoas são pessoas

Boas más péssimas

A falar mal pelas costas

A falar bem pelas costas

A fazer intrigas

A fazer pequenos gestos de bondade

Pessoas são pessoas

Hetero, homo, bi

Trans, binário, não binário

Pessoas são pessoas

A fazer mal aos outros

A fazer bem aos outros

A serem vítimas

A serem carrascos.

Pessoas são pessoas

De cara lavada

Ou com maquiagem

Cara ou barata

Pessoas são pessoas

Com a casa vazia

Com a decoração da moda

Pessoas são pessoas

Boas más péssimas

Pessoas são pessoas

Homofobia, transfobia,

Racismo, xenofobia

Quem não tem fobias

Que atire a primeira pedra.

Mas com fobias ou não,

Pessoas são pessoas.

Nota: Com um agradecimento especial aos Depeche Mode: People Are People.

Imagem: O futuro rei da França, Luis XV, a usar um vestido rosa em 1712. Pintura de Pierre Gobert.

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