A mulher que sempre quis, por Jayne Relaford Brown

Estou a tornar-me a mulher que sempre quis:

Cabelos grisalhos, corpo suave, encantada…

Quebrada,

Pela Vida.

Com uma gargalhada que já conheceu a amargura

Mas deixou-a para trás, ultrapassou…

Sabe que é uma sobrevivente

– venha o que vier, passará –

Estou a transformar-me num fundo e resistente cesto

Estou a tornar-me na mulher por que ansiei:

A amante maternal,

De longos e ternos abraços,

A filha que cresce e cora de surpresa,

Estou a tornar-me em luas cheias e nasceres do sol.

Vejo-a atraente,

Essa mulher por quem ansiei

Uma mulher que abraça e contém,

Que sabe que é suficiente,

Que sabe onde vai

E viaja com paixão.

Uma mulher que se lembra que é precisa

Mas não é escassa.

Sabe que é muita,

Muita para partilhar.

Jayne Relaford Brown

NOTA: Tradução de Patricia Rosa Mendes do poema “Finding her here”.

ZEITGEIST, de Fernando Pinto do Amaral

Os meus contemporâneos falam muito

e dizem: “Então é assim”,

com o ar desenvolto de quem se alimenta

do som da própria voz, quando começam

a explicar longamente as actuais tendências

das artes ou das letras ou das sociedades

a pouco e pouco iguais umas às outras

neste primeiro mundo em que nascemos, 

agora que o segundo deixou de existir

e que o terceiro, mais guerra, menos fome,

continua abstracto, em folclore distante.

Parece que está morta a metafísica

e que a verdade adormeceu, sonâmbula,

nos corredores vazios onde, às escuras

se vão cruzando alguns milhões de frases

dos meus contemporâneos. Todavia, 

falam de tudo com o entusiasmo

de quem lança “propostas” decisivas

e percorre as “vertentes” de novos caminhos

para a humanidade, enquanto saboreiam

a cerveja sem álcool, o café

sem cafeína e sobretudo

o amor sem amor, para conservarem

o equilíbrio físico e mental.

Os meus contemporâneos dizem quase sempre

que não são moralistas, e é por isso

que forçam toda a gente, mesmo quem não quer,

a ser livre, saudável e feliz:

proíbem o tabaco e o açúcar

e se por vezes sofrem, tomam comprimidos

porque a alegria é uma questão de química

e convém tê-la a horas certas, como

o prazer vigiado por preservativos

e outros sempre obrigatórios cintos

de segurança, para que um dia possam

sentir que morrem cheios de saúde.

Quando contemplo os meus contemporâneos

entre as conversas “trendy” e os lugares da moda,

“tropeço de ternura”, queria ser

pelo menos tão ingénuo como eles, 

partilhar cada frémito dos lábios,

a labareda vã das gargalhadas

pela madrugada fora. No entanto,

assedia-me a acédia de ficar

assim, mais preguiçoso que um Oblomov

à escala portuguesa – ó doce anestesia

a invadir-me o corpo, a libertar-me

desse feitiço a que se chama o “espírito

do tempo” em que vivemos, sob escombros

de um céu desmoronado em mil pequenos cacos

ainda luminosos, virtuais

estrelas que se apagam e acendem

à flor de todos os écrans 

que os meus contemporâneos ligam e desligam

cada dia que passa, nunca se esquecendo

de carregar nas teclas necessárias

para a operação save

e assim alcançarem a eternidade.

Fernando Pinto do Amaral, Poesia Reunida (2000)

Sonhar com sons

Dedicado a Fabrício Cordeiro

Ele sonha através das teclas do piano,

Onde toca a música que escreve.

Dá a cada tecla um som,

Criando misturas inesperadas,

Fascinantes.

Ele transforma as teclas – que não mudam

Com o tempo

Em sons novos

Todo o tempo!

Ele cria composições novas

Sempre que o seu poder criativo aparece,

Extremamente diferentes,

Extremamente emocionantes.

Ele sonha através das teclas do piano.

Poetry Slam

Faz te ouvir.

A poesia que tu

Escreves

A original

Aquela que e a tua cara

Vem participar

Nao me interessa ganhar.

Ganho sempre.

Amigos, vivências,

Novos pontos de vista.

Vem desafiar te.

Joga ao Poetry Slam

Comigo.

Eu venho para te ouvir

E quero ser ouvida.

Vao ser atribuídos pontos

Aos nossos poemas

E a forma como os dizemos.

No fim vai haver um vencedor.

Mas o importante é ganhar a poesia.

Mas o importante é ganhar a amizade.

Faz te ouvir.

Sou e não sou

Sou o que não sou,

Sou o que quereria ser e não sou.

Não sou o que os outros querem que seja

Apenas sou o que possível ser

Hoje

Tenho pessoas que admiro.

Gostava de ter as suas qualidades.

Mas não me parece possível.

Não sou como quero, sou como sou

Não sou como os outros querem que eu seja.

Sou apenas um indivíduo

Sou todo o mundo, ate aqueles de quem não gosto.

Sou eu e não sou eu

Sou sozinha e isolada

Sou em mim e sou nos outros.

E não sou os outros.

Pingos solitários

A chuva tentou cair?

Se tentou, desistiu.

As nuvens não deixaram?

Hoje de manhã no meu carro

Meia dúzia de pingos solitários

A espera de companhia

Que nao veio.

A seca seca nos

Ficamos sem agricultura

Sem turismo

Com menos saúde

E menos vida.

Precisamos de chuva.

Hora de contabilizar, ao milímetro,

A água que usamos em casa.

Hora de contabilizar, ao milímetro,

A eletricidade que gastamos.

Hora de viver em câmara lenta

E ver tudo encarecer.

Meia dúzia de pingos solitários

dão o tom dos nossos dias.

Um gato, dezenas de ratos e uma eleição entram numa história nada infantil

O gato disfarçou-se de rato-de-protesto contra o rato-chefe. Todos os ratos aplaudiram-no, muito deles porque estavam fartos dos erros e dos interesses do rato-chefe. Depois de eleito, o gato despiu o disfarce de rato-de-protesto, quando se tornou rato-chefe. E foi comendo, um a um, QUASE todos os ratos. Primeiro os que não votaram nele, com a ajuda dos outros ratos. Depois, quando essa categoria de ratos acabou, os que votaram. Comeu todos os ratos, menos meia-dúzia. Porque? Essa meia-dúzia financiou a campanha do gato.

Nota: Escrito em 23/01/2022.

Migalhas

Ou arrisco, e fico e apanho migalhas

Ou venho embora e apanho tristezas.

Amo-te e fico dividida

Entre aceitar as tuas migalhas

E a dignidade que despertaste

Dentro de mim.

Que felicidade encontrar-te

Nos becos da vida

E que tristeza perder-te

Logo a seguir.

Quando penso em ti

Sinto uma enorme alegria

Sinto uma enorme esperança

De ser possível vencer todos os obstáculos

Que a vida traz

Que estão dentro de nós

E tornarmo-nos melhores

E ser feliz com pouco

Só não espero que o “tu” e o “eu”

Nos tornemos num dia em nós

Há vida para além dos nós

Apertados da existência

Dos afectos obrigatórios e não escolhidos

Mas trouxeste-me a dor de te querer

Na minha insistência.

E também este amor

Que vive entre a dignidade

E a urgência da tua presença.

Inverno no Verão

Inesperadamente do céu caem pedras,

Inesperadamente cai um diluvio de água,

Inesperadamente o meu vestido de Verão fica molhado,

O Homem, inventor da ciência e da técnica,

Senhor da Natureza, do visível e invisível,

Curva-se temporariamente perante o poder desta

Natureza vingativa sobre a forma de pedras e trovoadas!

A Natureza vinga-se, tornando esta promessa de Verão

Num Inverno de chapéus de chuva e ir cedo para casa!

Inesperadamente, as folhas verdes resplandecentes e primaveris,

Caem no chão como se fosse Outono!

Inesperadamente deixamos de pensar em praia

E vamos buscar a roupa de Inverno!

Inesperadamente a minha alegria torna-se triste

Ao ver este Inverno dentro do Verão!

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