Ubervidas / Vidas precárias – 1: Vidas Uber Eats

Ele trabalha para o aplicativo

Vai pela rua carregando a mochila

Percorre mil vezes a cidade

Carregando a mochila para nos

Levar a comida a casa.

Carro, mota, pés

São os seus instrumentos

De trabalho.

Ele trabalha para o aplicativo.

Usa o que possui para trabalhar.

Não tem direito a férias pagas.

Não tem direito a subsídio por doença.

É um precário,

Trabalha para que nós podermos

Estar confortáveis em casa.

E ele, quando vai para casa?

E ele, quando tem conforto?

A leveza da mochila

E o peso da vida

Acompanham-no.

Ele trabalha para o aplicativo:

Tem uma vida Uber Eats!

Eu consigo

Consigo? Não consigo?

Depois de anos a pensar

Não consigo

Será que afinal consigo?

Comigo as lutas são

Ouvir-me é tarefa diária

Não tenho o sucesso

Almejado para mostrar.

Consigo-me vencer todos os dias

Mas mesmo assim termino a pensar:

Não consigo. E comigo avança

Mais uma etapa.

Consigo? Não consigo?

Cada problema um novelo

Que se solta no ar

À espera de arrumação…

Logo, à espera de resolução!

Muitos nós na cabeça ainda tenho

Para resolver.

Consigo? Não consigo?

A vida é um jogo

Cheio de problemas.

O melhor da vida

E o pior da vida

É resolvê-los.

In articulo mortis

A vida não é um momento,

São muitos momentos:

Uns bons outros não.

Todos construímos a vida em cimento

E não estamos preparados para o terramoto

Que pode desmoroná-la

Temos de criar uma vida sem tormento

Porque ela é demasiado curta para o nosso.

Leva a vida com sentimento,

Pois é a única certeza que tens.

Num momento estamos a discutir,

No outro já estamos a morrer

Sem perceber!

A hora da morte chega

Mais cedo do que deveria!

Que a hora da morte venha tarde.

In articulo mortis!

NOTA: Texto escrito a pensar nas 5 pessoas (minhas amigas, conhecidas e família) que morreram em 2021. Provavelmente esta estatística triste ainda aumentará. Mas também fica desde já dedicado a todas as pessoas que morreram depois desse ano.

Última Actualização: 20/05/2023

Ela que….

Ela que tem dentro de si

Muita escuridão!

Ela que viveu nessa escuridão muitos anos,

Até que um dia acordou

E a vida mudou nesse dia!

Porque ela precisava de luz!

Ela a quem a luz apareceu!

Sobre a forma de pessoas e acontecimentos,

Pessoas-luz quem chama amigos!

Ela que tem uma pessoa-luz

A quem chama

Secretamente amor!

Ela que sempre teve leituras-luz

(De todos os géneros)!

Ela que foi descobrindo

Filmes-luz e músicas-luz

Que a tiraram do abismo

Antes dela acordar!

Ela que há um ano descobriu

Que escrever lhe dá luz:

Terapia ocupacional,

Sobre a forma de poesia e contos,

E às vezes outros géneros!

Escrever é dor e cura!

Ela que sempre gostou de caminhar

E descobriu que caminhar lhe dá luz!

Ela que está a aprender a enfrentar a sua dor,

Às vezes medita: mais luz!

(E menos um comprimido!)

Às vezes precisa mesmo

De comprimidos-luz

Para encontrar de noite

A paz dentro de si!

Ela que…

Nota: Obrigada à Luz Clandestina, em especial a Andreia Marques, pelo desafio.

Lutas essenciais

Há duas lutas essenciais:

Uma dentro de ti,

Outra fora de ti.

Uma é um caminho que só tu podes trilhar,

Cheia de obstáculos e de erros:

Chama-se Vida.

Outra é aquela que fazes no coletivo:

Tu, mais eu, mais muitos tus

Económicos, sociais, políticos.

Sempre políticos!

Todos somos um.

Cada um por cada um.

Diferente mas igual.

Igual mas diferente!

Duas lutas: uma individual e solitária,

Outra colectiva e solidária!

Precisamos vencer ambas!

(A luta individual tem fantasmas do passado

Fantasmas do presente e fantasmas do futuro:

Como um livro de Charles Dickens)

Poema do M

M de mudança:

Decisão que tomei para não ficar parada para sempre.

M de maturidade:

Procuro-a desde há muito.

Caminho difícil.

M de medos:

Tantos para superar!

M de mutação:

Serei capaz de sofrer uma mutação benéfica?

M de manifestação:

Manifestação da minha vontade!

M de máscara:

Caminho arrancando aos poucos as minhas máscaras.

Quando as máscaras acabarão?

M de música:

Criando novas melodias.

M de máxima:

Muitos livros de auto-ajuda depois, caminhando sem manual.

M de mal:

E se tudo correr mal?

M de memória:

Passado por ultrapassar, futuro por criar.

M de metafísica:

Existe sempre algo superior a mim.

Os princípios e o destino.

M de metalinguagem:

Será suficiente para nos entendermos?

M de mito:

Tantas crenças para ultrapassar!

M de modo:

Como fazer as coisas?

M de moral:

Não conhecem a tua vida.

Têm moral para falar?

M de movimento:

Crescer é a ambição.

M de mundo:

Tanto para conhecer, tanto para viver!

Encontro de almas

Uns trazem poesia,

Outros contos,

Outros pedaços de romances.

Está aberta a porta para

Todo o tipo de textos!

Todos trazem sorrisos

(convém também trazer empatia)

Para estes encontros.

Companheiros de Escrita

são encontros de almas.

De grandes escritores no presente

E de grandes escritores no futuro!

Há contexto para

Crescermos juntos.

Para todos haverá espaço

Porque é sobretudo…

Um encontro de almas!

Batom vermelho em confinamento

Voltamos ao confinamento,

Os hospitais estão cheios

Na linha da frente a morte, sempre presente,

Torna-se ainda mais opressivamente existente.

Fechados em casa, estamos cada vez mais desunidos.

Fechados em casa, estamos cada vez mais pobres.

E eis que aparece de repente

Vinda da campanha para eleição de presidente

Um motivo de união: lábios vermelhos.

Lábios vermelhos podem ser símbolo:

Da normalização do que é ser mulher.

Lábios vermelhos hoje são

símbolo da liberdade!

De poder ser vermelha, verde, amarela.

Da liberdade que é não vestir

As calças e o casaco do fascismo.

Lábios vermelhos estão nos trending topics:

Serão brevemente esquecidos.

Mas precisamos de não esquecer a união.

Tenhamos a união dos lábios vermelhos sempre!

Ansiedade(s)

Era uma menina-mulher (já entrada nos entas) cheia de nós na cabeça por resolver.

Havia um nó maior – nó mestre – que era gigante. Este era um nó cego, à espera que alguém conseguisse puxar o fio e desatá-lo.

Havia nós médios: as grandes decisões, os grandes medos. Alguns eram recentes outros antigos.

Por fim havia nós pequeninos: as pequenas decisões do dia-a-dia. As escolhas a fazer.

Cada dia que passava, os nós cresciam mais dentro da cabeça da menina-mulher. Ela já tinha recorrido a várias fadas-boas para lhe ajudarem a desatar os nós. As fadas-boas desatavam, mas o efeito durava pouco tempo. Por isso a menina-mulher decidiu procurar opor todo o reino uma fada-boa com mais poderes. Procurou, procurou. E ainda procura.

Como terminará esta estória?

Ó luzes da minha cidade

Ó luzes da minha cidade

(Queridas luzes de Natal)

Sois testemunhas

Dos meus dias de desespero

Dos meus dias de esperança

Das minhas interrogações diárias

Como viver? Como proceder?

Sois testemunhas

Dos meus sonhos concretizados

Dos meus sonhos ainda no papel

À espera do momento certo

(Há momento certo?)

Sois testemunhas

Dos meus medos por ultrapassar

Ó queridas luzes de Natal

Preciso de vos a iluminar o meu ano

Entretanto sereis retiradas e arrumadas

Mas esperai um pouco mais:

Preciso que o vosso espírito

Ilumine o meu 2021.

Fotografia de Fernando Rodrigues

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