Chá de limão da vida

A água quer-se quente,

Há casas de limão à espera,

Assim como lágrimas por chorar,

Assim como palavras por dizer.

Aguarda-se um tempo para que o chá assente

Assim como a vida precisa do tempo certo

Para conversas dificieis.

Quanto tempo será suficiente?

Há quem sugire que bastam uns minutos,

Há quem precise de anos!

Cheira a limão na cozinha,

É o cha de limão acabado de fazer.

Os incomodados não gostam do cheiro acido

Assim como há os que não gostam da acidez da vida

E prefiram verdades escondidas durante anos.

O limão cura a constipação, com um pouco de mel.

Devia haver uma cura para as palavras por dizer

Devia haver uma cura para as lágrimas por chorar.

É o sabor agridoce e ácida do chá de limão

Que nos salva às vezes da doçura falsa da vida.

Ioga

Preciso de cultivar a calma

Preciso sentir o corpo

E aprender a dobrá-lo na medida certa.

Dobro-me para me encontrar.

Preciso de me enrolar num tapete

Fazer a posição de gato

Fazer a saudação ao Sol

Preciso de sentir o silêncio

Preciso sentir-me

Corpo e espirito unidos

Preciso do escuro e do silêncio

Para reencontrar a minha luz.

A tômbola da contingência

Para desgosto dos negacionistas,

Um novo plano de contingência nasceu.

O vírus é real e há quem morra

Mas há gente que acha que isso é um plano

Do tentador e que não se morre por isso!

Mas como a tradição ainda é o que era

O governo português esqueceu-se de tirar da tômbola

As medidas mais importantes para o bem das pessoas.

Menos alunos por turma? Jamais será aprovado isso.

Mais transportes públicos e horários desfasados? Demasiado caro.

Cuidar da saúde mental dos portugueses? Uma linha de telefone basta.

(Mas claro que é insuficiente!)

Só sai na tômbola ajuda a grandes empresas (as pequenas que esperem)

E pouco mais.

Escravidão florescente

Floresce o dia

Amanhece na minha rua

Toda a gente se levanta

Intempestivamente há horas

Marcadas para viver.

Anoitece o dia o mesmo

Corre-corre se repete

Ouvimos os barulhos

Roncando os carros passam

Depressa de mais para vivermos

Entalados no meio de tantos deveres

Inconformados com o estado do mundo

Reflectido em cada notícia que aparece

Ocorre o impossível, pensamos nós

Os outros não querem trabalhar

Lamentamos nós, ao ler a última notícia que

Irremediavelmente nos impede de ver

Erroneamente propicia a nossa falta de empatia

Imperivelmente nos faz desejar ser escravos e

Remotamente nos pede para que façamos dos outros

Acorrentados serviçais.

Poema do 9

9×1 igual a 9 e é cedo para o 19

9×2 igual a 18 não quero viver num 8

9×3 igual a 27 ou será a sede?

9×4 igual a 36 porque sou menos que 6

9×5 igual a 45 quanto mede o teu cinto?

9×6 igual a 54 quarteirões de Quarteira

9×7 igual a 63 quarenta e três e já és velha

9×8 igual a 72 pois ainda é cedo para os 80

9×9 igual a 81 agora sim chegámos aos 80!

Nota: Inspirada em Criatividade precisa-se, de Teresa Guedes

Poema de Agradecimento: Aniversário

O meu aniversário
Está a movimentar
Um sururu de gente boa
Que me dá os Parabéns
E me deseja felicidades
O que me faz sentir muita emoção.
A idade traz coisas boas
(não cometemos certos erros)
e más (cometemos outros erros).
Hoje deram-me os Parabéns
Gente sem salamaleques
Que sabe tornar as palavras bombons
Pessoalmente, por SMS, por chamada,
Por Facebook, Instagram ou LinkedIn
As vossas palavras aquecem o meu coração.
Obrigada!

Estes meses

Estes meses foram de aprendizagem

Ganhei uma nova coragem

Descobri quem sou.

Não sou perfeita tenho defeitos

Tenho também garra para guiar a carruagem

Que e viver.

Tantas vezes chorei

Mas mais vezes ri.

Por causa do vírus a morte tornou-se mais próxima

Mas também a vida mais saborosa.

Estes meses foram fáceis e difíceis

A solidão me deixa triste as vezes

Mas feliz a maior parte do tempo.

Esta solidão acompanhada

De gente espetacular

Deixa-me muito exultante.

Estes meses passaram depressa…

Aprendi os mil afazeres de uma casa

E mais mil me faltam aprender

Estou a instruir-me na universidade da vida

A melhor, a pior, a necessária!

Isto sem nunca esquecer o pensamento livre

Que vive no nosso íntimo

E que e o início e o fim de tudo!

Estes meses…

Como serão os próximos?

Que mais trará 2020?

O deserto chuvoso

Deserto está dentro de mim.

Mas chove lá fora.

Sejam bem-vindos

À minha travessia do deserto.

Todos os anos ela acontece em Agosto

E todos os anos tem o mesmo gosto

Mas este Agosto é diferente!

Tem um novo sabor a liberdade

Tem um novo sabor a ansiedade

De um futuro cheio de interrogações

Pergunto-me mas só há silêncio

Deserto dentro de mim.

E faltas tu aqui.

Tenho a minha liberdade

Falta a tua prisão.

Chove lá fora.

Mas faltam lágrimas dentro de mim.

Um futuro cheio de interrogações

Me espera

Mil perguntas que ninguém responde

(Nem eu!)

O deserto continua dentro de mim.

Mas chove lá fora.

Quanto tempo ficarei aqui?

Toda a gente é um exército de salvação

«Toda a gente é um exército de salvação!
Vêm com a sua charanga salvar-nos de nós próprios,
amigos, amantes, parentes, para não falar nas esposas.
Toda a gente nos quer dar esmola.
Só ninguém nos quer nus,
só ninguém percebe que uma só coisa nos podem dar realmente,
é olharem para a nossa alma nua e dizer:
– Está bem, assim seja.
Então seria o amor.»

Adolfo Casais Monteiro

Sábado à tarde

Sábado à tarde

A cidade torna-se silenciosa

O jardim está vazio

Na apenas rua encontramos

Um par de namorados

Septuagenários

E mais duas ou três pessoas.

Então, no silêncio

Do jardim sossegado

Eu escuto-me.

Oiço os meus lamentos.

Sonho os meus projectos.

Crio as minhas conquistas.

Aquando da correria semanal

Apenas oiço os meus deveres

Agora oiço-me toda:

Tudo o que já foi dito

Tudo o que não foi dito.

Porque neste silencio sossegado

Se cria mais energia

Para mais uma semana.

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